domingo, 26 de outubro de 2008

Espaço da Casa nº 11 - Condições de não realização



Condições de não realização
- Seu desgraçado! É claro que eu quero, e é claro que eu gosto de ti! Mas eu te odeio muito mais, por isso não posso me permitir, jamais!; por isso não quero! Tu me forças, és tu mesmo quem me obriga a odiar-te. Porra, eu gosto de ti!, mas é tudo culpa tua... Eu até queria deixar o passado pra trás, eu até queria me entregar, mas não me deixas, não me dás possibilidade, não me deixas escapatória senão odiar-te e expulsar-te de minha presença. Será que não consegues enxergar que não posso ser aquilo que queres que eu seja? Será que não percebes que pedes, imploras, exiges de mim que eu seja tudo o que vês em mim, sem, entretanto, levar em conta que eu não sou capaz de sê-lo?, que não sou forte o suficiente para suportar aquilo que imaginas em mim?, esse papel tosco que me queres fazer tomar. Não me dás apoio, não me sugeres força; mostra-te seguro, mostra-te capaz de sustentar aquilo que tanto queres, em mim e em ti, e eu serei tua, mas sozinha não posso. Não sou isso que vês em meus olhos. Não sou mais que essa inocência que às vezes escapa no riso, ou na dúvida. Sei que vês em meu sorriso uma provocação terrível, sei que vês nesses dentes o reflexo dos teus sentimentos, sei que parece-te que ao meu olhar, de repente, escapa você próprio, mas queres que eu sustente isso tudo, sozinha; impossível, querido. Não posso sustentar essa mentira. Por que não me deixas ver em ti as mesmas coisas? Por que têm que ser as nossas relações tão embriagadas de ti tão real?, e nunca me deixas ver algo além desses olhos fixos, mortos, que me empurram pra longe e me odeiam como realmente sou. Será que nunca perceberás que é tudo falso, que quem me enxerga como realmente sou não és tu, mas são os outros, e é por isso que tornas nossa relação a dois insustentável? Faço de tudo, tudo mesmo, pra mostrar-me a ti, mas não é a mim que queres ver, não me podes ver, e é só por isso que não me podes ter. Não vês que assim me esmagas?, que quando forças essa profundidade toda em meus olhos ela me esmaga, que quando busco emprestar de teus olhos força pra sustentar o que vês nos meus, ou mesmo um poço de semelhante profundidade para equilibrar nossos olhares, só encontro esse olhar morto e adulador, essa obsessão quente e essa obsessão fria, e é então que fujo, que busco em outro lugar, que me esmago, que te empurro... Não estás nunca disposto a sustentar nada, só queres te mostrar fraco e venerar em mim aquilo que não existe. Não existe. Eu sou a inocência, a fraqueza, a burrice, a irritação, a fadiga, a indisposição, a doença, mas não posso nunca ser a morte em cada uma dessas coisas, porque isso seria ser grande demais. Tenho que ser a fraqueza que finge força, pra poder ser fraca de verdade, pra poder mostrar que sou fraca, pois a outra fraqueza, extrema, não pode se mostrar, porque não chega a tentar, não há uma tentativa que fracasse, que mostre fraqueza. Sou a burrice que finge esperteza. Irritação, fadiga, indisposição, doença fingidas. E é assim que os outros podem me ver, e é assim que eu posso existir no mundo e ser real, e é dessa mulher que você está exigindo a outra, grande. Não me terás porque não me queres, porque não sou gigante, porque não me deixas ser, porque me empurras e me afugentas, e fazes isso de tal modo que fico eu a culpada, eu a parecer que te empurro, eu a fugir com os olhos para respirar mais uns minutos. Eu a te odiar. Amas a ela, mas a mim? Só fazes odiar-me.
- Mas eu te amo... será que não vês?
Será que ele não havia entendido nada do que eu disse? Soltei meus pulsos de suas mãos decididas com algum esforço, empurrei-o para fora do elevador e passei só uma vez meus olhos por seu olhar patético antes de me esconder atrás das muitas pressões do “T”. A porta fechou e eu relaxei, soltei dos pulmões o ar que me sufocava e irritava ao extremo. Como já era esperado, quando contornava o prédio ouvi um grito por alguns segundos, seguido de uma forte pancada no chão, do outro lado do edifício, continuei andando, impassível, girando na mão o velho e pesado cadeado, enquanto a outra, fechada em punho, aguardava paciente a ordem de converter minha irritação em insulto.


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