Segue mais um conto de autoria do morador Renan Costa, se é que esse trabalho em especial pode ser chamado de conto. Que o leitor não fique surpreso se as palavras transpirarem alguma estranheza ou inconsciência: o que se destaca aqui é que o texto, que relata talvez algo de um sonho, não foi escrito somente, nem sonhado - foi sim a manifestação motora de um sonho. O que encontra-se nessas linhas não é o sonho propriamente dito, mas a reação motora que ele, imediatamente, durante o seu transcurso, desencadeou em dez dedos sobre um teclado. Fora desse contexto, talvez, desapareça o singular e o interessante de Madrugada Alucinada.
Madrugada Alucinada
Era uma alva e clássica madrugada, daquelas em que o orvalho congelado cobre todas as coisas. Eu não sabia dizer mais nem meu nome, não sabia mais coordenar movimentos complexos, não sabia mais vomitar. Sei lá o que eu tinha tomado, sei lá que drogas tinha misturado, sei que estava totalmente inepto num segundo e, no outro, corria desesperado de não sei que sombra. Parei, ofegante, e já estava deitado naquele chão congelado.
- Que é que cê tá fazendo aí? - disse alguém numa voz estranha. Fingi que era minha imaginação, ignorei. Chute nas costelas, me contorci, abri os olhos, jeans, chute nas costas.
- Ele tá drogado - voz mais leve, mais jovem.
Que era aquilo na minha frente? uma colher? uma loja? agora era uma enfermeira que estava na minha frente.
- Encontramos ele na rua, tava caído, achamos que está drogado - eu conhecia essa voz de algum lugar. O tempo passou de volta.
- Sai, Jeremy! O moço tá doente, precisa dormir!
- Mas quem é ele?!
- Mais um amigo do seu tio...
Agora só tinha ácido, e depois eu acordei. Estava bem, estava me lembrando, estava vivo e pulsante, meu coração estava na minha boca, minhas mãos também. Fiz de tudo para erguer minha vontade, mas só ergui meus braços e minhas pernas, fiz de tudo pra caminhar no vento, mas só caminhei no carpete, descendo a escadaria, encolhendo a louça, ateando fogo ao mordomo. Que é que aquele mordomo estava fazendo lá?
- Estou queimando, senhor, só isso - não era essa a voz do pivete que me chutou as costas?
Me chutaram as costas? O mordomo queimava, e lá fora o gelo cobria todas as coisas. Aqui dentro não, aqui dentro era só calor, só amor, só lareira, só reação exotérmica, só carinho e aconchego familiar. Era a dor do calor na minha boca que o mordomo sentia. Mas o mordomo não sentia nada.
- Se o senhor quiser eu sinto, senhor - não era a voz do pivete não.
- Cala a boca, não pedi a sua opinião.
Quem, minha mãe? Não, ela é a marca da sanidade disso tudo, ela é a quentura indecente da família. Agora não eram mais enfermeiras nem pivetes, era a família. A família. A família não é a unidade básica de formação da nossa sociedade, da nossa cultura, da nossa civilização? Não são as dores do parto maiores que as dores do pudor? Não é no parto que a mãe aprende a trocar as fraldas do filho, a morder suas bochechas e a suportá-lo em suas mais ridículas manias?
- Quem é o rapaz de branco?
- Que mordomo?
- O rapaz de branco - que voz?
- É meu filho, sou pai! - era um velho.
- Parabéns!
- Devia ter agradecido antes, agora é tarde.
Devia mesmo, velho lerdo. Não aprendeu a trocar fraldas. Não aprendeu a gerenciar o calor da família. Não aprendeu nada senão em qual número jogar outro número. Será que foi o que eu tomei, será que foi o que eu fumei, será que foi alguma coisa ou será que sou eu mesmo? Mas ainda é uma madrugada lá fora, não importa quantas famílias me acolham, quantos mordomos queimem meu coração em dentes, quantos pivetes me chutem as costas e as costelas, quantas vozes me atormentem os sonos, nem quantas enfermeiras me destruam as vistas, sou todo ouvidos. Sou todo ouvidos orvalhados de cera.