É tempo de trazer às inférteis terras binárias mais um conto, novamente de minha própria autoria. As correntes de ácido talvez componham aqui uma atmosfera mais sólida, mais abundante, e ainda assim menos evidente. Boa sorte.
Pernas
O que eu quero contar não pode ser explicado, porque não pode ser entendido. Mas pode ser contado. Era uma rua muito pequena e torta. Tinha apenas uma quadra, mas era espantosamente movimentada. Asfaltada, no centro, de duas mãos; cada mão com duas pistas, as mãos divididas entre si por uma espécie de canteiro ou faixa de calçada. Espantosamente movimentada. Muitos carros, motos e aqueles que são, nessa história, os mais importantes, os ônibus. Nessa época eu ainda tinha amigos, conversava com pessoas; chegava até a gostar de gente. Era com alguns amigos, conhecidos, pessoas, colegas, gente, enfim, com quem eu costumava andar, que eu estava naquele dia. Fazíamos qualquer “não sei o quê” no centro da cidade e decidimos voltar para casa. O dia estava cinzento, um desses dias frios que geralmente sucedem um outro dia chuvoso; um desses dias em que, mesmo após a chuva, ainda é possível sentir o gosto de sujeira no ar, gosto que nos anestesia de um modo tal que os detalhes parecem todos inexistentes, ou, antes, cinzentos.
Pode-se dizer que é tudo culpa desse gosto. Eu costumava ser uma pessoa limpa. Não sou mais. Acho que, de algum modo, com esse gosto de sujeira no ar, com essa sujeira em tudo, cobrindo todo o chão e todas as superfícies e tudo que eu levo à boca, é impossível estar limpo, e foi essa conclusão que me fez desistir da higiene. Agora deve parecer que parei de tomar banho, de lavar a roupa, e me tornei um completo e total imundo, compatível com a imundice que me rodeava e que impregnava tudo; mas não foi isso que eu quis dizer. Continuava a me limpar, e mesmo a limpar as coisas, eventualmente; a diferença aparece apenas no objetivo. Não queria mais estar limpo, queria apenas manter um nível de sujeira que parecesse aceitável, que não me atrapalhasse. Essa nova concepção rapidamente fez com que eu não me importasse mais em estar sujo, pelo menos por algum tempo e na medida que isso não me atrapalhasse, de modo que eu não me importava mais, também, em me sujar. É nessa indiferença quanto ao “me sujar” que eu posso colocar a culpa pelos eventos que sucederam, e é através dela que eu posso colocar a culpa na sujeira como um todo, e, especialmente, naquele gosto de sujeira que infesta o ar, ao qual eu me referia no começo.
Mas é imperativo que eu siga adiante e pare de falar da sujeira, pois a narrativa já se tornou enfadonha. Se foi a sujeira, entretanto, que tornou a narrativa enfadonha, e que irritou o leitor, e se isso se deve ao meu discorrer sobre a sujeira sem explicar onde ela se encaixa no contexto ou por que eu digo tudo que eu digo a respeito dela, então o que faz a história cansativa é o não entendimento, é o fato de que é impossível ao leitor, nesse ponto, compreendê-la. Já alertei que essa história não pode ser entendida. Devo recomendar ao leitor, portanto, que, se o não entendimento lhe causa incômodo, ele logo abandone a leitura desse conto. Aquele que acha que a sujeira não deveria ter sido citada deve abandonar esse texto agora. Para os que continuam vamos, contudo, dar um sentido à sujeira, embora não possamos fazer o mesmo com a própria narrativa, e embora mesmo não seja esse sentido deveras aceitável.
Atravessei a rua com sucesso, projetando-me apressadamente frente aos carros que vinham velozes na primeira mão, e tranqüilamente na segunda, onde não haviam carros. Essas pessoas que mencionei antes, com as quais andava nesse período de minha existência, entretanto, eram muito receosas e comedidas, sempre restritas a seus próprios limites, achando mesmo que esses limites eram parte delas; não atravessaram a rua, ficaram parados logo na primeira calçada, deixando aquela fila infindável de carros e outros automotores se alongar entre nós. Suspirei entediado mais uma vez, ao chegar ao outro lado da calçada. Talvez estivesse desde então já saturado desse comedimento, dessa moderação, dessa mediocridade silenciosa e recorrente. O fato é que sentei no meio-fio. Acomodei-me sobre as pedras irregulares, pretas e brancas, e sobre a faixa cinza de concreto do meio-fio. É aqui que o gosto de sujeira do ar recebe de uma vez só toda a culpa que possa haver nessas linhas. Se eu ainda fosse uma pessoa limpa, se ainda soubesse ter a vontade de manter as coisas limpas e puras, jamais teria sentado com uma calça tão limpa em um lugar tão sujo. Mas a sujeira da calçada era mais confortável que ficar em pé, não era importante estar limpíssimo, era apenas importante não estar imundo. Eu nem sequer me sentiria mais sujo ao sentar na calçada, é mesmo possível que me sentisse mais sujo em pé, por gastar mais energia e respirar mais aquele ar podre do que faria sentado.
Sentei. Estendi as pernas sobre o asfalto. Desviei o olhar dos meus próprios pés para tentar enxergar alguém por entre os vultos de automotores. Nesse momento meus sentidos se apuraram, ao mesmo tempo que a parte mais periférica da minha visão registrou algum evento inesperado, o líquido de minha cóclea vibrou de um modo tal que me fez conceber muito distintamente a idéia da aproximação de um ônibus pelo meu flanco esquerdo.
(Não te parece estranho que, mesmo tendo tudo transcorrido tão rápido, seja eu capaz de precisar cada detalhe e cada movimento em ordem cronológica tão precisa?)
Bastou um giro de cabeça para que se retraísse minha visão periférica; meus olhos, de frente, captaram algumas imagens claras de um ônibus muito veloz e crescente, ao mesmo tempo que minha razão matemática, minha noção espacial geométrica me alertaram especialmente para o trajeto de um dos pneus dianteiros, que calcularam coincidir em alguns pontos com a posição euclidiana dos meus joelhos. A reação instantânea da minha faculdade de tomar decisões foi refrear um reflexo que deveria ser mais imediato ainda, aquele de recolher as pernas. Por algum motivo estranho, que eu não sei se se deve realmente ser atribuído à minha tomada de decisão, o supracitado reflexo não se deu, e minhas pernas, nos instantes seguintes, permaneceram inertes.
Eis a problemática toda: foi então que, após certa avaliação, eu, como um todo, como um indivíduo, não como um reflexo, não como uma tomada de decisão, não como a manifestação aleatória de um livre arbítrio idealizado; eu, não como estrutura, não como reação, eu como tudo mesmo, eu no sentido mais amplo; tomei a resolução de impedir que o ônibus arrancasse minhas pernas, tomei a resolução de dobrá-las sobre o meu peito e me arrastar para a parte mais segura da calçada com as minhas mãos. Como disse, quem tomou essa decisão fui eu como um todo, não como uma parte superior que comanda uma parte inferior; por isso não houve contração muscular, não houve coordenação de movimentos de modo a atingir o objetivo proposto: eu quis e então eu estava lá. Não ficou qualquer registro, e não houve mesmo, esse período intermediário, essa fragmentação em estabelecer objetivo, executar meios e atingir objetivo.
Levantei-me, alguém passou ao meu lado e disse, em tom de espanto, que achava que eu perderia as pernas, mas eu não tive forças pra responder, se é que ouvi. Os comedidos atravessaram a rua, rumamos para o nosso destino, eu acho, sem que eu dissesse mais nada... eu acho.
Houve, imediatamente após esse incidente, como que uma dissociação, uma quebra, um esmigalhamento: a minha fraqueza não comportava a existência da possibilidade de uma resolução tomada por algo tão inteiro, tão integral. Se algo assim fazia parte de mim eu não podia suportá-lo; era certo demais, absoluto demais, correto demais para mim. Na minha fraqueza não havia lugar para nada integral. Na impossibilidade da minha fraqueza sustentar essa integralidade é que se deu esse rompimento estranho, avesso a todas as coisas.
Enquanto eu andava, enquanto eu comia, enquanto eu observava, minha mente não podia mais se ocupar de outra coisa senão da resolução desse problema, não podia tratar de outra coisa senão dessa incoerência. Por vezes eu lançava um olhar assustado à realidade, percebia-me de volta nela, apenas para poder, então, delegar essa função a mecanismos automáticos, e voltar a me ocupar da minha dualidade, da minha fraqueza. Que direito tinha eu de manter as minhas pernas? Que direito tinha eu de tomar qualquer decisão? Se nem mesmo os meus reflexos naturais foram capazes de atender às necessidades, como é que podia eu inferir assim sobre a realidade? Mudar as coisas de modo tão drástico? Qual era o sentido de mudar meu próprio destino tão drasticamente? Eu jamais seria capaz de tomar essa decisão, eu nunca faria uma coisa dessas. Não havia em mim qualquer traço tão decidido, tão capaz, tão cônscio a ponto de julgar-se apto a assumir tal decisão, tal responsabilidade; não havia em mim essa ousadia, essa coragem; era eu, também, um comedido! Todo o meu esforço para mostrar-me diferente não era senão para exigir dos outros que deixassem de ser comedidos, exigir deles uma resolução e um poder que jamais seria possível encontrar em mim.
Se eu tivesse perdido as pernas naquele momento, o transeunte chamaria desesperado a ambulância, o motorista acionaria todos os mecanismos que fora treinado para acionar, e choraria as conseqüências da sua distração com os olhos das dívidas, meus companheiros far-se-iam repentinamente ensandecidos, alguns passariam mal, talvez, outros exigiriam providências imediatas, buscariam culpados, não teriam coragem de pousar os olhos nos meus fluidos vitais espalhados pelo asfalto. Meus familiares todos se enterneceriam, muitos se engajariam em lutas sociais pelos direitos dos cadeirantes; todos ganhariam, em meio ao caos de suas incertezas, algo certo, algo que certamente precisava deles, uma razão sobre a qual edificar seus destinos, todos teriam, finalmente, aquele motivo que desde tão cedo buscaram para fazer o que quer que fizessem.
Como era possível que eu lhes retirasse isso? Se eu não possuía mesmo o direito de remover ao transeunte o prazer de participar finalmente de modo ativo em alguma história digna de ser lembrada, como é que poderia eu ter a audácia de roubar-lhes, assim, de repente, o futuro baluarte de suas novas vidas? Como é que poderia eu, agora, compensar isso? Como seria possível fazer-me sustentáculo de tantos destinos, se eu era tão fraco? Onde é que estava aquele eu inteiro, resoluto, que decidira assim, sem mais nem menos, mudar a história, agora que sua força era necessária para compensar a minha fraqueza? Fraco como sou, jamais conseguiria restituir aquilo que lhes tirara à força, com uma força que eu mesmo não compreendia e falhava em sustentar.
Tentei muito incessantemente arrancar minhas próprias pernas, primeiro com objetos cortantes, depois naquela mesma rua... mas os instintos, fossem meus, fossem dos outros, sempre me impediram de obter êxito em minha empresa. Não havia outro modo de dar a todos aquilo que mereciam ter, que precisavam ter, que deveriam ter. Mesmo esse modo não era absolutamente certo. Aliás era certa a sua ineficácia, mas não havia outro. Não poderia haver, eu era fraco. Quando comecei a fazer tentativas com objetos grandes e pesados algumas pessoas descobriram os meus objetivos, e logo comunicaram-nos a muitas outras, que conseguiram desvendar minhas primeiras tentativas. Logo passaram a me considerar louco. Não houve saída. Não pude fazer mais que isso. Dei a eles não aquilo que mereciam, mas apenas aquilo que me foi possível: fiz-me louco. Voltei a ser limpo.