Contos da Casa!
Segue um conto de autoria do morador Daniclei Alves, que venho a ser eu. A idéia e o conto surgiram quando, mais cedo nesse ano, alguns moradores da Casa iniciaram uma competição ou, antes, uma espécie de clube cujo objetivo era a composição de um conto por dia. Embora o projeto tenha durado pouco, alguns diriam que deu alguns bons frutos. Outros não, mas, mesmo assim, eis um desses produtos.
Luiz Leão, 01...
Clandestina
Porque permitia aquilo comigo? Não sei, nada importa mesmo. – me virei e fitei seu rosto.
Ela tinha olhos esguios e feridos e machucados pela chuva e o vento. Uns sulcos na pele do rosto e rugas nos olhos castanhos, no fundo dos olhos.
– Algum problema além do absurdo da vida? Descansei a visão no seu corpo enquanto ela se recompunha, parecia inteligente, um belo corpo. Antes que falasse qualquer coisa, soltei a garrafa.
– Com uma personalidade insatisfeita, é normal se sentir péssima algumas vezes. – devo ter acertado, me olhava catatônica, resolvi continuar nessa linha – As pessoas sempre te incentivam e fazem você acreditar que é uma coisa superior, algo além do óbvio, e queria estar aproveitando esse potencial, não? Mas acalme-se, nada vai ser bom o tempo todo, nem ruim o tempo todo. Acredite em mim, com o tempo você vai acostumando com essa merda toda e nada no meio dela sem nem sentir mais o fedor.
O belo corpo não se moveu, somente me olhava com uma cara incrédula, parecia um espectro. Eu havia bebido demais, estava me segurando pra não vomitar em cima dela ali mesmo. Mas se fosse uma aparição mesmo, acho que não ia ligar.
– O que você anda lendo? – me perguntou – Que coisa horrível de se dizer.
Reparei numa pequena cicatriz em seu pulso fino, branco e delicado com veias à mostra.
– Sabe, os fatores sociais - especialmente da sociedade moderna - exercem profunda influência sobre a vida dos indivíduos com comportamento suicida. A sociedade está doente, desmotivada e perdeu a sua realidade e nós, somos o pus que escoa dessas escaras.
O pouco racional que restava em mim se interrogava e perguntava porque eu estava falando aquelas besteiras de sociologia I. Ela paralisou. Me olhava com os olhos cheios de fúria e raiva. Fui arrastado pra dentro daquele olhar, lá dentro era uma calmaria e desespero, puxado num turbilhão de pensamentos todos no mesmo instante e lá dentro era uma sinfonia e uma calma num momento e angústia raivosa indecente no outro. Não sabia mais como voltar, nada no mundo existia além daquele caos que era a mente dela. Resolvi voltar a ser um indivíduo um pouco normal, afinal, ainda reparava nas pernas dela.
– Desculpe, eu andei bebendo e falo umas porcarias assim de vez em quando. Quer um gole? – Péssima idéia – pensei – que tipo de idiota você é? Inexplicavelmente, ela aceitou, sorveu a bebida como em fúria consigo mesma, bebia bem, deveria ter experiência em auto-destruição.
– O que você faz? Digo, além de conversar com perdedores no ponto de ônibus? Correu um discreto sorriso entre os lábios. Eu estava apenas falando a verdade.
– Sou... Escritora.
– E trabalha em quê? – Péssimo, deveria lançar um livro sobre como perder uma garota com perguntas idiotas. Ela ficou calada, com um ar levemente impetuoso e ofendido. Perguntei isso, porque tinha amigos metidos a escrever e todos tinham alguma outra profissão, professor, músico – o que exigia uma terceira profissão – caixa de supermercado, gerente de banco. Tentei me explicar.
– Não, sabe o que é? Acontece que tenho amigos que escrevem, e todos têm algum outro afazer, deve ser por causa do país ter poucos leitores, em 500 anos, temos um ou dois caras, que comparados com os outros... Só Machado se salva... Esqueça, estamos no Brasil, nunca seremos grandes só pelo fato de sermos daqui.
No meio da minha “explicação” queria me dar um murro no rosto. Talvez eu devesse beber menos, ficava sincero demais. Burro demais. E ainda queria vomitar. Recebi num primeiro instante apenas um olhar gelado, uma expressão blasé.
– Seremos? Quer dizer que você escreve também? – parecia incrédula, arrogante até, como se fosse uma arte hermética reservada a poucos escolhidos como se eu tivesse dito que pertencia a ordem secreta do último livro do Dan Brown.
Ela havia me acertado em cheio, a angústia e náusea deram lugar a um soco forte e certeiro no meio do meu estômago, cravou uma agulha de tricô em cada olho meu e puxava o conteúdo. Mas agora, tinha de falar alguma coisa.
– Se ler já é uma coisa estúpida, afinal, não é nada útil e sempre te deixa pra baixo... Imagina escrever... – mentira, eu escrevia – Tudo bem, palavras e idéias podem ser arrebatadoras e delirantes e deliciosas a ponto de você virar escravo delas, mas somos uns fodidos de qualquer forma. Se eu escrevesse, ia descrever as sensações físicas e psicológicas de como as pessoas se sentem quando caem as fachadas de sorrisos e elas estão sozinhas em seus quartos. Ia fazer com que cada pessoa que me lesse fosse levada ao desespero. As pessoas gostam disso, deve ser seu lado masoquista.
– É, você é bom nisso. – definitivamente, eu não teria uma foda aquela noite.
Ali, eu era uma mistura de ansiedade, enjôo e da pancada que ressoava por todo meu corpo que ela me deu ao lembrar das minhas linhas que ninguém nunca veria, me perguntava que parte do “você deve ser agradável com as garotas” eu não tinha entendido. Ela caiu num silêncio profundo, olhando para os carros que passavam deixando o asfalto molhado de garoa luminoso com o reflexo dos faróis. Se eu pudesse, se houvesse como, por mim, eu não sabia porque, seus dias seriam de eterno entusiasmo... Devia ser pela sensação que tive quando vi aquele início de sorriso nos seus lábios finos.
*Continuação não terminada não revisada de pouca qualidade.
Realmente não fazia idéia de como prosseguir naquele colóquio de fraudes e frases batidas e nenhuma risada. Ela era apenas uma escritora falida, podia perceber isso somente pelas suas roupas surradas, a menos que fosse desses artistas que acham bonito usar trapos gastos e surrados. Não podia deixar a coisa acabar assim, não podia desistir perante uma mulher suicida e desenganada e frágil, o que meus amigos chamariam de presa fácil. Tinha de pensar em alguma coisa pra dar continuidade à conversa e não conseguia pensar em nada, só sabia – instintivamente – que dessa vez teria de ser agradável. Aquilo estava uma droga, era um belo corpo e eu o queria e não sabia como continuar e pelo jeito que a carruagem se arrastava, se não falasse nada, da parte dela não receberia mais do que um adeus quando seu ônibus chegasse e caso não fosse o mesmo que o meu nunca mais a veria naquela cidade.
– Qual o seu ônibus? – Não era o assunto mais interessante do mundo, mas foi o que a minha inaptidão social despejou naquele momento.
– Aeroporto. – Respondeu fria e seca.
Pior que isso só se eu fizesse uma pergunta qualquer que tivesse possibilidade de resposta monossilábica, o tipo de resposta que me fazia ter vontade de entrar em coma.
– Vai viajar? – O tipo de pergunta imbecil que se faz instintivamente sem pensar, porque a menos que ela fosse uma criminosa indo pegar um avião pra Colômbia, levaria malas consigo. Muitas pessoas pegavam aquela linha que passava por uma região imensa da cidade, se antes ela deveria ter me achado um psicopata cheio de ódio e angústia – coisa que eu não necessariamente era, não muito - por causa dessas minhas perguntinhas idiotas ia me achar um boçal insignificante.
– Não. – Pelo menos dessa vez ela franziu os olhos.
Minha mente vagava por lembranças que consumiam aquele momento. Não conseguia controlar o turbilhão que se infiltrava com pequenas lâminas perfurando todo meu corpo produzindo formigamento e secura e palpitação. O efeito da bebida voltava e eu estava caindo e caindo vertiginosamente mais rápido olhando para o céu noturno sem estrelas que era a minha alma cheia de recordações que faziam a maior parte de tudo que eu tinha e me feriam profundamente. Conforme fui chegando ao solo frio daquela noite de chuva fina, meus sentidos foram retornando. Ela ainda estava ali, as mesmas olheiras que me faziam ter vontade de proteger aquele ser.
– Quais seus autores preferidos? – Ela se virou rápido, surpresa, pela minha conversa de maníaco e simplório deve ter julgado que eu não conhecia nada de literatura.
– Balzac... Bukowski...
– A letra B tem grandes caras hein? – Meu livro sobre como perder uma garota ia ter uma tiragem recorde. Nessa hora achei que ela ia me bater ou tirar uma arma da bolsa, poxa, era pra ser um comentário engraçado. Mas não foi, ao menos pra ela. Tentei melhorar a situação.
– Esses caras são realmente bons... Te deixam pra baixo e fazem o leitor ver que a coisa toda pode ser muito mais decadente, que nem pra isso você serve, pra ser um filho da puta de verdade... – ela pareceu odiar meu comentário e soltou um olhar que me provava que caso houvesse algum ser humano no raio de quilômetros, preferiria conversar sobre a interessantíssima e florescente economia do Djibute com esta pessoa do que comigo sobre literatura.
– Vem cá? Você sempre tem comentários horríveis sobre tudo? – aquilo doeu.
– Na verdade não. Seus olhos são lindos e você inteira parece encantadora. – ela corou.
Soltou um fragmento de sorriso abafado. Ao menos agora eu era um maníaco psicopata engraçadinho. Elogios, benditos sejam! Você massageia o ego de uma pessoa e consegue ao menos que ela não te odeie! Se ainda por cima conseguir fazer com que a pessoa se sinta superior, ganhou um aliado. Acontece que eu não queria uma amiguinha, eu queria despejar meu ser naquele corpo e nunca mais vê-la. Talvez isso fosse evidente demais no meu comportamento e ela não fosse esse tipo de escritora.
No momento seguinte a imaginava secando os cabelos enquanto eu ficaria no computador com blusa de lã nos dias frios tentando escrever meu livro que nunca saía da página vinte por mais que eu escrevesse. Depois líamos e depois ríamos depois sozinhos, porém, apenas a certeza de que ela estaria ali ao lado e nós dois prontos um para o outro pra cada momento de inverno em que leríamos e ficaríamos tristes ou mesmo nos momentos de medo, tudo ficaria mais fácil, afinal de contas, a única coisa que se teria a fazer seria correr e pedir asilo nos braços do outro...
Típico pensamento de perdedor. Ainda mais ao se tratar de uma menina que estava me desprezando, dali para frente, só faltava imaginá-la num vestido de noiva para chegar ao fundo do poço.
Poxa, aquele tinha sido realmente um dia terrível e infestado de baratas e coisas repulsivas nojentas desgastantes, a única coisa boa durante o dia foram as risadas que dei do absurdo da vida, estava na fila do restaurante que servia salsichas baratas nas terças no centro comunitário quando vi uma distinta mendiga indo lavar as mãos, ela tinha uma aparência conflitante, um misto de elegância mal-trapilha, mas o que me chamou mesmo a atenção foi quando ela estava prestes a abrir a torneira, colocou a moeda de um real na boca. Muito higiênica, eu diria. Foram as únicas risadas do dia.
A escritora continuava ao meu lado e a minha cara de pensativo neurótico desleixado e pobre que fala coisas desagradáveis deve tê-la deixado com alguma curiosidade além da repulsa, pois eu podia perceber olhares furtivos na minha direção. Agora parecia que ela queria conversar e isso me fazia pensar que ela realmente devia ser muito solitária e uma presa fácil e complicada ao mesmo tempo porque eu não era o gênio dos bons diálogos e ela, definitivamente, não era muito de falar.
Acendo um cigarro pra ver se consigo pensar em alguma coisa - o de número um zilhão! - e ouço vozes comemorativas e purpurina caindo do teto em meio ao papel picado com faixas apodrecidas e sorriso desdentados dizendo “parabéns!!! parabéns!!! seu bilionésimo cigarro! temos de prêmio pra você: um eczema e um tumor bucal!”
Fui desperto da minha imaginação febril por uma frase dela:
– Você me consegue um cigarro?
– Claro, quer beber mais um pouco? Devo ter uns copos plásticos na bolsa e ainda tem uma garrafa cheia...
Ela sorriu e fez que sim com a cabeça e o que senti foi muito estranho porque eu detestava gente que respondia as coisas apenas com um sorriso, mas ao mesmo tempo a visão de um sorriso dela, um de verdade, não o canto da boca maliciosamente me inspirando a imaginar como seria o seu sorriso me fez esquecer a repulsa que tenho por pessoas caladas feito eu, poxa, somos falantes! Mas as pessoas têm medo de dizer alguma bobagem e acabam também por tédio nos deixando à maré dos piores pensamentos possíveis. Ao menos agora quem sabe eu conseguisse embebedá-la e a arrastar para o meu apertamento-parede-banheiro. O que seria ótimo, pois eu o havia limpado e varri o chão que estava tão sujo que eu não tinha varrido e sim escavado.
– E você, o que faz da vida? – Agora não havia mais aquela expressão de desprezo mas apenas uma curiosidade que esperava algo como carregador de lixo ou misturador de dejetos de esgoto e até mesmo perito em desarmamento de minas terrestres no Quênia não iria a surpreender.
– Bem... Sou... Na verdade... Escritor. – E eu senti uma vergonha e um pudor grande passar por dentro de mim nessa hora. Como se é um escritor se não há nada com seu nome nas livrarias mesmo as mais obscuras, mesmo as que vão definitivamente falir dali um tempo por comprar coisas de autores desconhecidos e as exibir na estante poeirenta, mesmo essas, não sabiam meu nome. Nem minha mãe lia as coisas que eu escrevia. Mas eu sinto essa vontade insana de escrever e colocar todas as coisas que estou pensando num arquivo como se isso realmente tivesse algum valor artístico subjetivo ou qualquer coisa assim, e penso que isso é uma grande besteira. Mas parece uma pulsão sexual, um desejo profundo de conceber forma de fazer existir quase um instinto de sobrevivência através das linhas como se algum dia alguém fosse me descobrir e pensar “nossa! esse cara me entende!!! Ele sacou as mesmas coisas que eu!”, grande vontade de ficar martelando e martelando com fúria o teclado que logo se vai por causa da força que eu faço ele brilhar, logo vou escrever com dois machados um em cada mão arrancando sangue e órgãos das teclas a cada batida e então, o que eu escrever vai ser bom.
– Ah... Agora entendo de onde vem todo esse rancor e pessimismo – Ela disse isso com uma expressão agradável, daquelas que fazem você sentir melhor que é, esquecer todo o resto de lixo e mágoa que eu sentia por estar bêbado a vida toda, mesmo quando sóbrio.
– Não – respondi seco – pra falar a verdade eu deixei de curtir as minhas tristezas então as ignoro – mentira, pensei – acho que aprendi a conviver com ela, assim como o carinha espancado todos os dias na escola depois de um tempo, apanha sem sentir dor... – que grande mentiroso eu era, pensei, mas ao menos isso deveria funcionar, melhor que a minha sinceridade de chicotadas. Ela olhava e bebia e fazia que sim com a cabeça, acho que o álcool estava a deixando interessada em qualquer coisa que eu dissesse, mas como eu bem imaginei, ela nem deu bola pro fato de eu escrever, feito a minha mãe. Continuei:
– É não se permitir chorar, por exemplo, já tentou? Tenho feito isso por anos... – Se continuasse assim, meu nariz ia começar a crescer – talvez eu fique insuportável daqui um tempo, mas que se dane a humanidade – ao menos isso, era verdade.
– Mas e os seus amigos, família? – Ela começou a dar uma de psicóloga e eu sabia onde isso iria parar, na cama. Aliás deve ser por isso que Freud faz tanta alusão sexual, ele deve ter sacado isso na prática, não foi só cocaína. Você começa a se interessar pela vida de uma pessoa e vai acabar trepando com esse alguém.
– Eu tenho amigos que entendem que isso é o melhor pra mim e um dia vou constituir família e viver meu sonho doméstico com alguém que ame todos os dias – Besteira. Só estava ficando um pouco mais sóbrio e tinha de desfazer a imagem de psicopata. O que eu queria mesmo era comprar um carro roubado pra dar umas voltas por aí e comer umas putas.
– Que bonitinho isso – sorriu como se eu fosse um dos Ursinhos Gummy.
– É, minha vida não é feita só de vísceras penduradas na árvore de natal – Devia estar meio bêbada porque ela deu risada e foi fantástico e eu me lembro de cada instante dela feliz.
– E além dos seus escritos que devem ter vísceras por todo lado – gotcha! essa até me fez gargalhar – e sonhos domésticos, do que mais é feita a sua vida?
– Bem... ... Agora... ... Tem você também. – ela corou muito e ficou com a expressão mais bonita que eu já vi na vida.
E depois disso a conversa foi animada e divertida e parecia que nos conhecíamos a tanto tempo falando das neuroses delas e dos meus medos idiotas de escritor falido e desempregado sem perspectivas que nem vale a pena escrever aqui e conversamos em alegre e divertida fúria que parece uma batalha de quem vai falar mais e euforia dominada pela segunda garrafa de whisky no meu mini apartamento.
II
Talvez agora - já é dia - com essa dor de cabeça que toma forma em minha mente mostrando imagens obliteradas e destrutivas de sangue e violência, eu possa perceber tudo que aconteceu tão rápido. O sol ofusca minha visão. A última coisa que eu lembro era do olhar de leve temor que se dirigiu a mim daquela mulher no meu quarto, ela viu meus olhos e recuou para o outro lado da cama – besteira, pensei – eu percebia nitidamente os fios de cabelo liso dela e o amarelo dos olhos nos lençóis, as cores vivas dos tecidos como se tudo tivesse perdido a profundidade e ficasse nítido sobre a minha visão. Os tecidos enrugados parecendo estar sorrindo pra mim com ódio e olhares sarcásticos.
E ela se afastou e encolheu mais e pude sentir o medo, o cheiro do medo, como se eu fosse um animal de caça com um instinto assassino, mas eu só queria uma boa noite de prazeres libidinosos, e o medo dela aflorava e despertava e rugia alto como um vento forte que ecoasse de dentro dela pra mim vindo na minha direção. Poderia descrevê-lo na sua forma mais pura, pois vinha manchado com sangue com uma face desmesurada disforme e retorcida como num quadro de Munch o medo dela tinha aquela aparência e cheiro de mofo, sempre achei que medo devesse ter um cheiro mais forte, mais agressivo, mas acho que o temor que gera o principal tremor é o mais catastrófico abalo que a fazia tremer e parecia tão frágil e abalada que eu tive até um pouco de vontade de pegá-la em meu colo.
Depois disso eu lembro de gritos.
Agora aquele estar mal que entoa uma polifonia de sensações e dores e delícias que vão subindo do estômago como se usasse algum pendante mágico enfeitiçado com pedras negras que sugassem a sua alma aos poucos num espiral pra dentro de si mesmo e quando a alma se contorcesse e gemesse e ficasse toda num canto obscuro do seu peito, explodindo por estar comprimida ali, e não mais no resto do corpo, simplesmente ia se esvaindo aos poucos evaporando no ar devagarzinho se desfazendo indo embora.
É assim a minha angústia.