Ceia
Vade, sume tibi uxorem fornicationum,
et fac tibi filios fornicationum.
“Ordeno-te: pega uma puta e vá ter filhos da puta!”. Definitivamente, sem qualquer margem de dúvida penso que algumas pessoas não deveriam ter levado a frase acima tão a sério. Alberto era um grande filho de uma puta. A bela ordem acima foi dada por Deus, o cara lá de cima das barbas brancas e aquela história toda, dirigida indiretamente através de um anjo, mensageiro, o scrapbook, o sms divino. O felizardo dignificado com tal diligente e prestigiosa honraria era o profeta Oséias, personagem bíblico que deu origem ao nome do jogador do Palmeiras do cabelo estranho. Puta merda, cabelo escroto aquele.
Ordem do caralho! Imagino o anjo do senhor, descendo em toda a sua transfiguração e glória e fulgor num halo de pureza e... pose de glam dos anos oitenta, fedendo a maquiagem queimada pelo fogo do senhor dizendo pra ele engravidar a turba de putas da cidade.
O pai do Alberto era um desses idiotas que levou a frase a sério. Deu a luz ao maior filho da puta que eu já conheci, chato, aporrinhador, o sujeito recendia uma pureza que enojava assim como quando se usa um detergente de quinta categoria numa repartição pública esverdeada. Recendia como um produto de má qualidade e como uma buceta de puta mal lavada. Chega de putas. Que eu não sou cristão e não pretendo engravidar nenhuma.
- Cara! Quando eu to naquele lugar sagrado eu sinto uma força e expulso todos os meus demônios. – dizia o Alberto.
E eu tendo de suportar aquele cabelo penteado com banha de porco. Aquela felicidade fingida e desesperada e aquele sorriso banguela de quem enlouqueceu. Sem esboçar qualquer reação diante do comentário eu só conseguia pensar assim como o filho de Deus, e clamava aos brados da minha mente para um céu avermelhado que rugia acima de mim: “Pai! Porque me abandonaste?”. O comentário tinha sido tão exagerado que eu insisti em permanecer dentro do meu devaneio a ter de enfrentar aquele sorriso irritante. Assim, eu encenei as mais engraçadas poses de Jesus nos momentos mais constrangedores como quando ele resolveu dar uma de fiscal do rapa e acabar com o comércio no templo dos Judeus. Deus! Eram judeus!!! O que mais poderiam fazer? Eles ao menos não queriam que o filho de deus morresse asfixiado pregado num pedaço de madeira para saldar os nossos pecados ainda nem cometidos, isso sim era usura e comércio.
Só que o Alberto estava ali, com aquela cara de maluco esperando a minha reação, como se não fosse suficiente eu não falar nada. Enxergava o infeliz expulsando demônios no solo sagrado e lembrava novamente de Jesus, dando um rewind no filme da paixão de Cristo eu chegava nas cenas dele expulsando demônios. Nada deveria ser mais fácil pro Diabo que entrar no corpo de algum mendigo esfarrapado morrendo de fome. Sem muito trabalho, com alguns pães e... quem sabe; um pouco de atuação, eu poderia expulsar dez demônios e capirotos e cramunhões por dia.
O mais estranho nessa história toda é o mal gosto dos diabos, não posso deixar de perceber o apreço pela ralé e pelos mendicantes. Nenhum governador, nenhuma modelo, nenhum ator internacional... nenhum médico, jurista, professor, nenhum estudante de bandolin ucraniano. Só os suplicantes.
- Eu não tenho tempo nem paciência pra essas coisas, sem contar que parece perigoso. – retruquei sem pensar, bem aos moldes albertianos.
- Mas cara! Você paga uma ninharia, é uma espécie de gratidão àqueles santos pra entrar em êxtase por duas, às vezes três horas! Eu saio rouco e com a alma lavada.
Quem sabe uma boa punheta aos gritos resolvesse, pensei. Ali, eu era uma mistura de indignação e violência contida, de raiva e respiração prolongada, aquele ser, depois de tantas pregações feito essa tinham me feito odiar a sua causa. Eu lutava contra um cavaleiro negro gigante que ria de mim e me perspassava o punhal da ignorância, dizia zombeteiramente que eu falasse tudo que sentia e acreditava. Se aproximava e eu sentia o fedor nauseante e via sua pele descarnada e vermelha e com cicatrizes que ria e ria e ria. De repente notei que estava numa reunião de família e o gole de bebida antes de responder fez meu estômago aquecido voltar ao mundo dos vivos. O filho da puta é meu cunhado, não posso ser sincero, pensei.
- Quem sabe um dia desses eu vá assistir com você Alberto, vamos ver. – respondi, no meu tom mais dissimulado.
- Assim que se fala campeão! – e me deu um tapinha nas costas que quase fez eu arrancar a laringe do desgraçado com o garfo da salada.
Detesto torcedores de futebol, pensei.
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