
O mundo gira incessantemente e rápido, cruel e mais veloz e veloz como se eu me deslocasse pelo ar em fúria dentro de um kamikaze em direção a um navio cheio de pessoas gritando e ligeiro eu entro nos olhos deles e atravesso todas as suas lembranças e cada medo deles floresce em mim neste momento. Quando parece que a dor de cada uma daquelas pessoas em chama vai passar, eu os vejo. Eles... Eles!
São os covardes infames desgraçados, mas não fogem, pois se trata de outra espécie de covardia, então eu vejo a chuva torrencial de napalm quente queimando a última partícula e percebo que na verdade é o meu sangue os lavando e imagino queimando a alma desses desgraçados. Eu nem estava ali quando as coisas começaram, não sou o culpado dessa bagunça toda e sinto o estupor apenas me transportando devagar agora entre um exército vermelho. Eu sei que a conquista é montada em solo árido inocente exausto. Consigo até mesmo perceber gritos a quilômetros e quilômetros de distância, como se eu os visse correndo na minha direção trazendo o desespero de seus desafortunados donos bradando cenas nunca sentidas. Vejo sombras na luz desse belo e maravilhoso florido dia. Eu sei que estou preso nesse segundo para toda a eternidade e toda e toda e toda. Anos e anos e anos de derramamento de sangue e uma espera que suga a vida aos poucos e quando ela acaba começa a tormenta e tempestade. Quando a desesperança toma de completo e onipresente meu ser o sádico fluir das coisas parece rir de mim e então eu empunho minhas armas e respiro e avanço apenas pra me defrontar perante o horror involuntário abrupto intrusivo que traz o desespero aterrador como um tiro na minha cabeça ao perceber a minha fraqueza. Eles estão encarando o meu caminho e cuspindo e lendo minha mente, atropelando cada centelha de vida que já houve um dia. Grito sozinho de pé na escuridão quando tudo se vai e deixa o rastro de fumaça e o cheiro de carne queimando em meio às chamas que consomem o meu corpo que espera a luz ausente que nunca chega. E quando chega destrói mais do que tudo que antes arrasou cada centímetro de terra, luzes cegantes vindo de todas as direções nesse palco bastardo de asco e vísceras vomitadas expostas nas faces tortuosas e ofegantes aos meus pés. Corpos dilacerados em vários estágios diferentes de putrefação, um mar fermentado butírico recheado de vermes, ossos expostos cobertos por finas camadas de sofrimento. Vidas rasgadas saindo dos corpos seminus translúcidos, para baixo e em espiral perdendo-se na fúria contida das nossas almas podres. Eles continuam seus escárnios com ironia refinada.
E eu mesmo, empalidecido por baixo das manchas de sangue, com a pele gelada e rija e rugosa raspando desconfortável nos meus trapos. Vejo-me em meio à necrópole implorando por ajuda em meio aos meus gritos emudecidos pela devastação incessante.
A graça não exercida de nossos corações se enche de raiva e vinga-se de um por um com crueldade e lentidão. A compaixão nunca exercida se enche de repulsa aos seres humanos e os empala lentamente, um a um. A minha liberdade nunca expressada fecha todos os muros ao redor de mim até me sufocar. A fé nunca sentida torna-se o desdém destruindo qualquer certeza das mentes que perderam a humanidade e caminham feito zumbis por todo o campo relvado de miséria e suor.
Não consigo respirar.
Pensar.
Viver.
- Acalme-se, por favor. – A agitação foi penetrada por uma voz calma e grave. Eu tremia na cadeira em frente a uma bela mesa com um pequeno busto de um velho de barba. Dando conta de mim mesmo aos poucos.
O velho de verdade, atrás do busto prosseguiu:
- O senhor ficou paralisado durante alguns segundos, - foram horas, pensei eu - parecia em pânico.
-Contudo, acalme-se, - prosseguiu o senhor - eu tenho uma boa notícia, de acordo com tudo que conversamos neste mês, creio ter um diagnóstico. O senhor muito provavelmente apresenta estresse pós-traumático – estresse o cacete! velho filho de uma puta -pensei, roubando meu dinheiro, desgraçado.
O velho prosseguiu.
-Vai fazer uso de Sertralina e Topiramato, a minha secretária vai indicar as dosagens com calma depois, após um mês o senhor retorna e veremos se a medicação surtiu efeito.
-Contudo, acalme-se, - prosseguiu o senhor - eu tenho uma boa notícia, de acordo com tudo que conversamos neste mês, creio ter um diagnóstico. O senhor muito provavelmente apresenta estresse pós-traumático – estresse o cacete! velho filho de uma puta -pensei, roubando meu dinheiro, desgraçado.
O velho prosseguiu.
-Vai fazer uso de Sertralina e Topiramato, a minha secretária vai indicar as dosagens com calma depois, após um mês o senhor retorna e veremos se a medicação surtiu efeito.

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