sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Espaço da Casa n. 2 - Um ode à derrota

Contos da Casa!
Segue um conto de autoria do morador Renan Costa, que venho a ser eu. A idéia e o conto surgiram quando, mais cedo nesse ano, alguns moradores da Casa iniciaram uma competição ou, antes, uma espécie de clube cujo objetivo era a composição de um conto por dia. Embora o projeto tenha durado pouco, alguns diriam que deu alguns bons frutos. Outros não, mas, mesmo assim, eis um desses produtos.



Um ode à derrota

Acre, podre, ácido, salgado, o vômito me subiu à boca; líquido ou sólido, tudo naquela massa suja e porca que normalmente me sustentava a sobrevivência, tudo era espremido com força contra os meus dentes, deslizando muito rápido pelas frestas desses meus ossos esmaltados, pelas frestas da minha pretensa força calcificada. Minha língua - minha língua parecia também vomitada, se projetava, agora arrependida, contra meu maxilar fechado e, agora mais arrependida, não conseguia abrir caminho e só fazia invejar o sabor do meu estômago; indigna, não mereceria jamais a dádiva que seria a fuga, exceto talvez para poder, rastejando no paladar seco e poeirento daquela madeira imunda, ser esmagada e pisoteada pela sola de meu companheiro de quarto; pusilânime, fraca, imbecil, atrevida, causadora de toda aquela fossa, buscava agora fugir e se esconder, felizmente isso não era possível: estava presa à minha garganta e estava presa à minha sordidez.

O Mateus ainda estava em pé, eu não; sua boca ainda se movia, sua língua ainda chicoteava, seus olhos ainda eram vermelhos e tenazes, seus dentes ainda batiam com a mesma força dos músculos que lhe estrangulavam a garganta, com a mesma ardência com a qual suas faces, sempre tão frias, impassíveis e claras, agora queimavam em rubor. Em verdade, era ele quem vomitava. Era sua alma que eu via expulsa em cada estalar daquela língua, era isso que me diziam as baratas, besouros e moscas comedoras de merda, era isso que me dizia toda sorte de insetos nojentos e asquerosos que ele expulsava pela boca e que vinham me penetrar os olhos, os ouvidos, as narinas para serem depois, com todo o asco que eu tinha por mim mesmo, expulsos naquela podridão que eu forçava contra as cáries.

Eu é que havia insultado primeiro, fui eu quem o desafiou, fui eu quem, imaginando possuir força, escrachou sua fraqueza; era dos meus olhos, agora cheios de formigas, agora furados por pernilongos, que saíam outrora as faíscas mais ameaçadoras, era a minha língua, agora acuada pela força do que eu precisava eliminar, agora medrosa, agora salgada de minha sujeira, agora mole de asco, era a minha língua que moldava os escárnios mais ácidos e, em vil indústria, os dirigia todos ao Mateus. Eu o considerava um fracassado, a escória da humanidade, acreditava que ele se julgava incapaz de vencer e não fazia senão recolher-se a sua derrota, a seu cantinho cagado, a sua voz chorosa, a lamentar a si próprio, lamentar a vileza que é não ter a coragem e nem a ousadia de impor às coisas a sua vontade, infundindo-lhes propósito e verdade; via em meu companheiro de quarto de todos os dias a representação de tudo aquilo que eu jamais suportaria ser, aquela sujeira com a qual eu jamais compactuaria, aquela baixeza, aquela podridão, aquele comedimento, aquele medo, aquelas sanidade e sensatez insensatamente exacerbadas.

Foi num acesso ensandecido que eu decidi pôr fim àquela situação insuportável; aplicar o meu sarcasmo mais sádico, mais azedo, a minha ordem mais imperativa, extraí-lo daquela modorra, daquela doença; o sardonismo me escapou às vísceras sob sua forma mais pulsante e raivosa, apontei insano nele todos os defeitos que consegui encontrar, sob o agouro das palavras mais esdrúxulas; dediquei-me incessantemente por trinta e sete minutos a exorcizar dele aquele derrotismo caído. E consegui.

Foi num outro acesso ensandecido que ele me calou a boca, foi num outro acesso ensandecido que ele fez sair toda a sua podridão, expulsou sobre os meus batalhões de abelhas incessantes exércitos de vespas selvagens; foi a sua sujeira entrando pelos meus poros quando ele apontou em mim todos os defeitos que eu tentava forjar nele, a minha obsessão pela vitória, a minha incapacidade de lidar com a derrota, a pusilanimidade da minha vontade, sempre submissa às coisas, fingindo submetê-las, a fraqueza da minha força e meu asco a mim mesmo. Era uma outra força a que ela tinha, era uma outra fonte aquela de que ele dispunha; sua força vinha não da vitória mas da derrota, não era sua vontade mera extensão de um complexo de vencedor, mas sim uma febre incessante de prazeres e desprazeres, um disparate, uma capacidade insana de atribuir às coisas qualquer significado, um poder invejável de amar a derrota mais que a vitória, a fraqueza mais que a força, o ódio mais que o amor, as vespas mais que as abelhas, o vômito mais que a comida, o sangue mais que a carne, a dor mais que a vicissitude, a danação mais que o inferno, a maldição mais que a bruxa, a terra mais que o sol, os olhos mais que a língua, os ouvidos mais que os olhos e a merda acima de tudo.

O Mateus era um gênio, era possuidor da força que eu sempre quis ter, que eu sempre pretendi ter, era isso que me diziam aquelas baratas, e pernilongos, e aquele suco gástrico e aquela comida podre que ainda me escapavam às vísceras. Ali, a cara esmagada pela derrota, a cara no chão onde despejava meus líquidos, tossindo minhas últimas podridões, assisti impassível a minha língua ganhar finalmente o mundo, e toquei com ela a madeira, e cavei com ela uma pequena fresta cheia de poeira molhada que encontrei, e ali no gosto daquele realismo fui capaz de sentir e amar a derrota, ali me curei, ali desisti de vencer.


(20 de julho de 2008)

Um comentário:

Anônimo disse...

É daí que estão vendendo um computador da DELL?